Silêncio no Maracanã

Eduardo Galeano e Armando Nogueira

  • Era um ano complicado: 1950. A Segunda Guerra Mundial mal terminara e os países europeus ainda estavam se reerguendo. Por isso a Copa no Brasil contou com apenas seis países da Europa e outros sete americanos.

    Depois de 22 jogos por todo o país, a final no Rio de Janeiro. No campo, dois países amantes do futebol. De fato, as duas maiores seleções do campeonato. De um lado, a anfitriã, ainda virgem de títulos mundiais. Do outro, o vizinho Uruguai, vencedor da Copa de 1930.

    Duzentas mil pessoas lotaram o Maracanã, o maior estádio do mundo, especialmente construído para a ocasião, com a certeza de que assistiriam ao primeiro título mundial do Brasil. Um empate seria o suficiente para comemorar. Mas ele não veio. E, assim, o país amargou a maior derrota de sua seleção canarinho – que ainda não era conhecida assim. A camisa amarela só passaria a ser usada na Copa seguinte, em 1954, substituindo a anterior, branca com detalhes azuis, abandonada justamente por conta da fatídica derrota.

    A Revista de História convidou dois escritores que testemunharam esse momento para narrar a emoção do episódio e seus desdobramentos. De um lado, o brasileiro Armando Nogueira. Do outro, o uruguaio Eduardo Galeano. Duas bandeiras, dois corações, duas visões daquela tarde de inverno carioca.

    No Maracanã, a história parou

    Eduardo Galeano

    O Bebe Coppola, barbeiro de profissão, era também o técnico do clube de futebol da cidadezinha de Nico Pérez. Esta era a orientação ideológica que ele dava a seus jogadores:

    – Bola no chão, os pontas bem abertos e boa sorte, rapazes!

    O Bebe Coppola não tinha nada a ver com o Maracanã. Mas foi como se o tivessem escutado: assim tão simples, assim tão bem, jogaram os uruguaios na final de 1950.

    Mais de meio século depois, tudo ao contrário: a bola jogada aos céus e que Deus tenha piedade; e nossos pontas, que antes eram os wingers, os alas, já não voam pelas laterais do campo e agora mais parecem zagueiros ou sonâmbulos que perambulam pelo meio do campo. E a sorte não nos acompanha. Quem sabe. Será que não a merecemos?

    ***

    Naquela final do Maracanã, o Uruguai cometeu metade das faltas que o Brasil cometeu. Porém, mais de meio século depois, abundam os uruguaios que dentro e fora do campo confundem coragem com pontapés e pensam que garra charrua é outro nome do crime. Não faltam os inflamados locutores e os torcedores fanáticos que antes gritavam: métale, métale, e agora mandam: mátelo, mátelo. E até há comentaristas especializados que elogiam o que chamam de falta bien hecha, que é o assassinato cometido quando o árbitro está de costas.

    ***

    O Maracanã havia sido, na verdade, o começo do fim. A partir dali, fomos de mal a pior.

    Talvez a decadência do futebol tenha algo a ver com a crise da educação pública. Nossos anos dourados ficaram lá atrás: na década de 1920, fomos duas vezes campeões olímpicos; em 1930, ganhamos o primeiro campeonato mundial, e 1950 foi nosso canto do cisne. Aqueles milagres pareciam inexplicáveis, num país com tão pouca gente; mas não. Desde o início do século, nossa educação pública, laica e gratuita, havia ensinado a somar e a ler e também havia desenvolvido os prazeres do esporte em toda a população, sem divorciar a cabeça do corpo nem distinguir pobres de ricos.

    ***

    Um drama de identidade. Triste é aquele que não se reconhece na sombra que projeta. E entre as causas de nossa desgraça futebolística, que é a grande desgraça nacional, deve-se mencionar também a venda de gente. Nosso país decaiu muito. Exportamos mão-de-obra e também pé-de-obra. Nós, os uruguaios, habitantes de um país desabitado, estamos espalhados pelo mundo. Nossos jogadores também. Temos 248 jogadores de futebol profissionais em 39 países. O futebol é um esporte e uma criação coletivos, e não é nada fácil armar uma seleção nacional com jogadores que se conhecem no avião.

    ***

    Somos de futebol. A linguagem cotidiana o revela: Quem foge de sua responsabilidade, ou desvia a atenção, joga a bola para fora;
    para enfrentar uma crise, é preciso interromper o jogo ou parar a bola e pô-la debaixo do braço;
    quem faz alguma coisa bem faz um gol, e, se o faz muito bem, um golaço;
    quem dá uma resposta justa dá um passe açucarado;
    quem comete deslealdades suja a partida ou enlameia o campo ou bate pelas costas;
    quem erra por pouquinho bate na trave;
    uma boa resposta é um bom desarme;
    quem perde a posição na vida fica impedido;
    quem erra feio faz um gol contra;
    as crianças muito novas estão começando a partida, e os velhos muito velhos estão jogando os acréscimos;
    quando a mulher bota para fora de casa o marido infiel, dá-lhe um cartão vermelho.

    ***

    Tanto é assim, que o futebol nos condena à perpétua nostalgia.

    Nós, uruguaios, não o confessamos, mas, no fundo, acreditamos que a pátria se acabou no Maracanã.

    De 1950 para cá, não houve nenhuma conquista memorável

    E, no entanto, sim. Para não citar mais que duas das mais recentes: o Uruguai, este país invisível, foi o único país do mundo que plebiscitou a privatização das empresas do Estado, e 12 anos depois foi o único país do mundo que plebiscitou a propriedade da água. Setenta e dois por cento da população votou contra a privatização, em 1992, e, em 2004, 64 por cento da população se pronunciou pela propriedade pública da água.

    ***

    No fundo, suspeito, o problema está em que ainda acreditamos nesta grande mentira imposta como verdade universal, nesta infame lei de nosso tempo que nos obriga a ganhar para demonstrar que temos o direito de existir.

    Mas nossa maior vitória de 1950 ocorreu depois do 2 a 1 no Maracanã. Nosso mais alto triunfo encarnou- se no gesto de Obdulio Varela, o capitão celeste, o comandante do time. No final da partida, ele fugiu do hotel e da comemoração. E foi caminhar e passou a noite bebendo nos bares do Rio, de bico calado, de bar em bar, abraçado aos vencidos.

    BRASIL 1950 - 10% da população do Rio no Maracanã

    Armando Nogueira

     

    Tarde fresca do inverno carioca. A cidade sobe, em festiva procissão, a rampa colossal do Maracanã. Estamos no dia 16 de julho de 1950. Entro no estádio com o coração partido ao meio. Sou eu um fanático torcedor do Botafogo e não consigo entender que a seleção do Brasil não tenha um único jogador do meu time. Deploro a discriminação. Tenho ímpetos de torcer contra. Isto não é Brasil coisa nenhuma. Onde já se viu uma seleção nacional sem ninguém do Botafogo? Quem, nessa defesa, joga melhor que Nilton Santos?

    O Maracanã está superlotado. Estima-se que aqui estão, embandeiradas, 200 mil pessoas. “Dez por cento da população” – anuncia, com eloqüência, o alto-falante. Depois da informação, música: a banda dos Fuzileiros Navais enfeita o gramado, desfilando e tocando um dobrado daqueles que levam à guerra o mais pacato dos patriotas.

    Chegam as autoridades. O nome do prefeito, Mendes de Morais, é recebido com uma vaia colossal. O homem fez o estádio, ainda assim, leva pau da multidão. A arquibancada do futebol é o divã da catarse nacional. É aqui que o povo se vinga dos políticos. Deve ter nascido, hoje, na cabeça de Nelson Rodrigues a célebre sentença que o consagraria como o maior frasista do futebol: “O Maracanã vaia até minuto de silêncio...”.

    As equipes entram em campo. Reconheço, um a um, os jogadores brasileiros: Barbosa; Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Aflora, outra vez em mim, a mágoa
    clubística. Lanço sobre a equipe um olhar de botafoguense ressentido. Vejo, em campo, apenas quatro autênticos brasileiros: Bauer, do São Paulo, Juvenal, da Portuguesa, Bigode, do Fluminense, e Zizinho, do Flamengo. Os outros sete são vascaínos. Velhos e mortais inimigos da pequena porém brava nação botafoguense...

    Quer saber de uma coisa? É melhor mesmo que ganhe o Uruguai. Eles são gringos, vão todos embora daqui amanhã. Ninguém vai encarnar em mim.

    A banda toca o Hino Nacional. Me arrepio da cabeça aos pés. Confesso que aprendi o Hino Nacional
    bem antes de ter aprendido o hino do Botafogo. É o que basta pra ferventar em mim o sangue da pátria amada. Me rendo, de corpo e alma, à nobre causa da seleção brasileira.

    O primeiro gol brasileiro nos leva à alucinação. Embora o empate dê o título ao Brasil, o que a gente quer mesmo é que o Brasil repita contra o Uruguai o que fez contra a Suécia e contra a Espanha. Banho de bola, com direito a olé.

    Contra o Uruguai, porém, isso não está acontecendo. Até que, no comecinho do segundo tempo, o Brasil faz 1 x 0. Gol de Friaça. Baixa, então, no estádio a sensação de que está selada a vitória brasileira. A equipe justifica o açodamento com que a imprensa carioca preparou, de véspera, as grandes manchetes do jogo. Desde sábado, a primeira página dos principais jornais já estava impressa: todas cantando o “Brasil, Campeão do Mundo”.

    Dois lances que não estavam no programa: dois gols do Uruguai, um de Schiaffino, uma beleza, e outro de Gigghia, uma desgraça. Esse caiu como uma maldição. Seria a pá de cal na chamada soberba nacional, porque o Brasil já vinha campeão há pelo menos 72 horas; e comemorando o título, há pelo menos 24 horas.

    O primeiro gol do Uruguai não assustou. Em nenhum momento a seleção brasileira esmoreceu. E, de mais a mais, o empate nos daria a Copa. Quando, porém, a bola de Gigghia venceu Barbosa, aí acendeu no estádio a luz vermelha do desespero. Ainda assim, o time brasileiro não esmoreceu.

    Eu me lembro de que a equipe uruguaia passou maus bocados. Salvou-a o goleiro Maspoli, um gigante. Sobretudo nos dez últimos minutos, quando o Brasil asfixiou, de forma enervante, a equipe uruguaia. Em vão. O título ficou com eles.

    Pela primeira vez, que eu visse, os deuses do futebol decidiram castigar a soberba de uma nação. E daí a cena pungente da multidão absolutamente aparvalhada, no estádio tumular.

    Atrás das pessoas saindo do estádio, um rastro de desolação.

    Eu estava nas cadeiras cativas e pude ver a cena do jogador Danilo Alvim saindo do campo, desabado, em prantos. Abraçado com ele, em soluços, também, o locutor Jaime Moreira Filho.

    Imagino o que está acontecendo pelo Brasil afora. O país inteiro só pode estar mortificado. É uma catástrofe. Em menos de uma hora, o estádio parece um imenso cemitério. Não há um só brasileiro no momento da cerimônia de entrega da taça Jules Rimet. O velhinho Jules Rimet, presidente da Fifa, leva apenas dois minutos pra entregar a taça aos vencedores. Presentes, só os cartolas uruguaios, os jogadores uruguaios e o alto-comando da Fifa. Mais ninguém.

    O povo descendo a rampa, em silêncio, parecia um imenso cortejo fúnebre. Parecia, não – era mesmo. Tínhamos acabado de enterrar a soberba nacional. Perdemos um título ganho, da boca pra fora, na véspera.

    De repente, como que movidos por um acesso demoníaco, os torcedores investem ferozmente contra o busto do prefeito Mendes de Morais. A cabeça do general, em bronze, tinha sido entronizada um mês antes, na porta principal do estádio. Em dois minutos, se tanto, a estátua do prefeito rola pela rua, tocada a pontapés pela multidão revoltada. E acabaria atolada no lamaçal do rio Maracanã. Que, além de tragar a cabeça do prefeito, lhe tomou, também, a grande honraria: o estádio, que nascera com o nome de Mendes de Morais, desde então passou a se chamar, para sempre, Maracanã. Anos depois, passou a ser, oficialmente, Estádio Mário Filho. Na boca do povo, porém, é Maracanã mesmo.

    Anos depois, com uma visão mais serena, acabei chegando à conclusão de que a equipe uruguaia não era a sopa que sugeria a crônica esportiva brasileira, nas vésperas da decisão. A imprensa estrangeira reunida na Copa do Mundo elegeu a seleção final como se faz em todos os mundiais. O Uruguai tinha lá cinco jogadores: Maspoli, Obdulio Varela, R. Andrade, Schiaffino e Gigghia. O Brasil teve quatro na seleção final, o que prova que realmente estavam ali na final as duas melhores equipes que disputaram o Mundial de 50.

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