Outros maios

Angélica Barros

  • Foto: ToluayeUma Suíça à brasileira

    Era a esperança de tempos melhores. No início do século XIX, um grupo de suíços acossados pela fome aceitou emigrar para o Brasil, mais especificamente para a antiga região da vila de São Pedro de Cantagalo, pouco acima do rio Macacu, na região Serrana do Rio, com a promessa de que ganhariam lotes e sementes para o plantio. Com autorização de D. João VI, dada em 16 de maio de 1818, inicialmente vieram cerca de 100 famílias suíças, que foram integradas à antiga fazenda do Morro Queimado, mais tarde denominada Nova Friburgo.

    A esperança, porém, tornou-se um pesadelo. Entremeada por vales pantanosos e terrenos íngremes, a terra se mostrou imprópria para o cultivo do café, obrigando os colonos a se transferirem para outros lotes menores que haviam ficado de reserva.

    Apesar de se manter na produção de outros gêneros alimentícios, como milho, feijão, batatas e hortaliças, além da criação de gado, com a produção de queijo e manteiga, a região não prosperou como era esperado. O esvaziamento da colônia foi considerável. Muitos optaram pela vizinha região de Cantagalo, que contava com uma forte produção cafeeira, o que, inclusive, atraiu outras centenas de imigrantes até meados de 1829.

     

    Luzias versus saquaremas

    Com posições divergentes em relação à forma de lidar com o poder, o centralizador Partido Conservador e o federalista Partido Liberal se estranharam durante todo o Segundo Reinado. Após o Golpe da Maioridade, em 1840, os “saquaremas” (conservadores) e os “luzias” (liberais) se esqueceram da política formal e foram às vias de fato.

    Líderes da articulação que colocou no poder o imperador D. Pedro II, com apenas 14 anos de idade, os liberais estiveram à frente do jogo político no primeiro ministério formado por ele. Após as primeiras eleições, o uso da violência acabou forçando o imperador a destituí-los do gabinete e a conceder privilégios aos conservadores.

    Não aceitando a destituição, no dia 17 de maio de 1842, os luzias deram início à Revolução Liberal na cidade de Sorocaba. Em São Paulo, a liderança do movimento ficou a cargo do ex-regente Antonio Feijó e de Tobias de Aguiar. Já em Minas, foi Teófilo Otoni quem formou tropas nas cidades para defender os liberais.

    A resposta do governo foi dura, convocando o barão (futuro duque) de Caxias para liderar as tropas e acabar com o movimento. Mas como nada é definitivo em relação a desavenças políticas, mesmo derrotados e, em alguns casos, presos, os liberais acabaram anistiados e voltaram à cena política em 1844.

     Mãe de todos

    Fundado há mais de três séculos na localidade de Barroquinha, região urbana de Salvador, a Casa Branca do Engenho Velho se tornou o primeiro templo religioso não católico a ser tombado como patrimônio histórico do Brasil em 1986.

    Chamado na língua iorubá de Ilê Axé Ivá Nassô Oká e fundado pelas africanas Iya Detá, Iya Kalá e Iya Nassô há mais de três séculos, o mais antigo dos terreiros de candomblé da Bahia só se mudou uma única vez. Temendo a intervenção das autoridades, foi alocado na região do Engenho Velho do Rio Vermelho de Baixo, onde permanece em funcionamento até hoje. Deu origem a centenas de outros terreiros, ganhando por isso o apelido de “mãe de todas as casas”.

    O tombamento, porém, não foi fácil nem rápido. O processo durou dois anos e envolveu muitas discussões. Começou em 31 de maio de 1984, quando a antiga Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, hoje Institutodo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, aceitou o pedido apresentado pelo antropólogo Gilberto Velho, que fazia parte do instituto. Centro de preservação da cultura iorubá, ele também é parte importante das raízes formadoras da história brasileira.

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