Cada crânio é um crânio

Habitantes pré-históricos do Brasil, os povos dos sambaquis eram populações litorâneas vivendo em sociedades mais complexas que se imagina

Walter Neves e Mercedes Okumura

  • Peças de cerâmica encontradas em um sambaqui do litoral de JaguarunaQuando você for ao litoral, preste atenção: aquilo que parece uma simples montanha ou duna pode ser um sítio arqueológico de milhares de anos, um local no qual os homens que viveram antes do início de nossa civilização deixaram vestígios de sua passagem ou atividades. Sambaquis são sítios arqueológicos em forma de colina, compostos basicamente de camadas de conchas e restos de peixe e construídos de forma intencional por sucessivas comunidades litorâneas. Encontrados desde o litoral do Recôncavo Baiano até a costa norte do Rio Grande do Sul, os maiores sambaquis brasileiros estão nos litorais norte e sul de Santa Catarina, atingindo até 30 metros de altura.

    Os sambaquianos estabeleciam-se em ambientes lagunares, com grande oferta de moluscos, peixes e crustáceos para o consumo diário, ou então em pontos da paisagem litorânea formados por um mosaico de ambientes – mangues, praias, restingas –, o que também lhes dava acesso à ampla gama de recursos alimentares, incluindo mamíferos terrestres, tubérculos e frutos. Essa abundância de recursos, somada à considerável densidade demográfica e à construção proposital dos sambaquis como monumentos ou marcadores territoriais, sugere que esses grupos eram relativamente sedentários, ao contrário da maioria dos já conhecidos grupos caçadores-coletores.

    Os zoólitos, refinadas estatuetas de pedra polida, podiam ter função ritual ou servir de recipientes para corantes ou substâncias alucinógenas

    Nas camadas mais profundas dos sambaquis, é comum encontrar diversos sepultamentos humanos. Há covas individuais e coletivas, corpos estendidos e em posição fetal e, com muita frequência, cobertos com grande quantidade de pigmento vermelho. Normalmente, os corpos eram enterrados apenas uma vez. Por vezes, havia um segundo enterramento, com grande manipulação do corpo após a exumação do esqueleto da cova primária. Em raros casos, eles eram cremados.

    Mas os sambaquianos não eram um povo só. As semelhanças e diferenças entre os vários grupos que habitavam nosso litoral começaram a ser descobertas no final do século XIX valendo-se de um método utilizado até hoje: a craniometria. A partir do comprimento e largura do crânio, da altura e largura das órbitas oculares e do nariz, por exemplo, a Antropologia Biológica ajuda a esclarecer quem eram e como viviam os grupos que construíram os sambaquis.

    O uso de dados craniométricos na Antropologia tem um passado bastante controverso, sobretudo pelo fato de terem sido amplamente utilizados pelos eugenistas – estudiosos que defendiam métodos de seleção humana baseados em premissas biológicas, influentes no Brasil da década de 1920. A eugenia classificava os humanos em raças e criava uma hierarquia entre elas. Em fins da primeira metade do século XX, o formato do crânio passou a ser bastante questionado como referencial para os estudos antropológicos, admitindo-se que os fatores ambientais também tinham influência sobre a formação craniana de um indivíduo. Mas a partir dos anos 1970, o uso de medidas cranianas para identificar o parentesco biológico entre as diferentes populações foi retomado, e em grande estilo. Primeiro, demonstrou-se que pelo menos 50% das diferenças morfológicas entre crânios são determinadas geneticamente. Depois, o uso de estatísticas muitíssimo sofisticadas contribuiu para o abandono do raciocínio racialista (para não dizer racista), que hierarquizava as populações. Passou-se a valorizar a diversidade não apenas entre os grupos, mas também dentro deles. Isso incluía até mesmo os traços anatômicos do crânio, também de base genética e variados nas diferentes populações.

    Desse renascimento da craniometria resultaram pesquisas recentes. Elas concluíram que duas populações distintas ocuparam a costa sudeste e sul do Brasil durante o período de construção dos sambaquis. Uma teria ocupado o litoral do Rio de Janeiro e de São Paulo. A outra, o litoral de Santa Catarina. Populações do litoral paranaense ocupavam posição intermediária. Em cada um desses grandes bolsões geográficos, as populações apresentavam diferenças biológicas.

    Tal divisão coincide com a distribuição dos zoólitos (zoo = animal e lito = pedra) na costa brasileira, que ocorre da costa sul de São Paulo em diante, mas não no Rio de Janeiro nem na costa norte e central de São Paulo. Essas estatuetas de pedra polida eram muito refinadas, diferentemente dos toscos artefatos de pedra lascada. Ora de maneira realista, ora de maneira estilizada, elas costumam representar baleias, peixes, pássaros e em casos raros mamíferos terrestres como o tatu. Muitas foram encontradas associadas a enterramentos humanos, possivelmente com alguma função ritual. Alguns zoólitos têm cavidades rasas no ventre dos animais representados – o que sugere seu uso como recipiente para a colocação de corantes ou substâncias alucinógenas.

    Tanto os artefatos de pedra lascada quanto os de pedra polida foram produzidos pelos sambaquianos para uso cotidiano e ritual. Já os de osso em geral possibilitavam artefatos bem trabalhados, que incluíam pontas, retentores de propulsão, agulhas e espátulas.

    A reconstituição do estilo e da qualidade de vida desses grupos pré-históricos também pode ser feita a partir da incidência de doenças ósseas. No crânio, são frequentes algumas patologias dentárias, como desgaste da coroa, doença na gengiva, abscessos, perda de dentes e placa bacteriana. Além de não conhecerem a higiene bucal como a que fazemos hoje, parte desses problemas dentários estava ligada à ingestão de alimentos com alta quantidade de areia e pequenos fragmentos de ossos de peixe. Por outro lado, as cáries eram raras, como aliás acontece em todo grupo caçador-coletor. Isto se deve a uma alimentação eminentemente proteica, com baixa ingestão de açúcares como sacarose (refinado), frutose (presente nas frutas) e sobretudo glicose (encontrada nas massas e nos pães). A exceção, ainda sem uma hipótese razoável que a explique, se dava em alguns grupos do litoral norte de Santa Catarina.

    Ingerir alimentos com areia e fragmentos de ossos de peixe causava-lhes muitas doenças dentárias, com exceção da cárie, pois não consumiam açúcares como sacarose, frutose e glicose

    Eram comuns infecções ósseas gravíssimas no restante do esqueleto, que podiam espalhar-se pelo corpo todo causando septicemia. Elas levavam à destruição do osso afetado, formando orifícios através dos quais o pus era drenado para fora. Alguns autores acreditam que parte dessas infecções era causada por bactérias muito similares às que hoje provocam a sífilis.

    A grande ocorrência de infecções reforça a tese de que os sambaquianos eram sedentários e apresentavam densidades demográficas relativamente altas – situações que favorecem a disseminação de bactérias e outros agentes infecciosos. Esse estilo de vida, associado à intenção de construir grandes sambaquis ao longo do tempo, sugere que aqueles povos eram socialmente mais complexos que a maioria dos grupos caçadores-coletores. Sua distribuição espacial, por exemplo, podia envolver um sambaqui principal, com grandes dimensões, circundado por outros menores.

    As sucessivas descobertas sobre a complexidade do mundo dos sambaquis alimentam novas perguntas e apontam para a necessidade de pesquisas em torno desses sítios, cenários importantes da pré-história da costa atlântica brasileira.

    Walter Nevesé antropólogo e arqueólogo, coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do IB-USP.

    Mercedes Okumuraé bióloga e autora da tese “Diversidade morfológica craniana, microevolução e ocupação pré-histórica da costa brasileira”(Instituto de Biociências, USP, 2007).

    Saiba mais

    GASPAR, Madu. Sambaqui: Arqueologia do Litoral Brasileiro. Rio de Janeiro:Jorge Zahar, 2000.

    LIMA, Tânia Andrade. “Em busca dos frutos do mar: os pescadores-coletores do litoral centro-sul do Brasil”. Revista USP 44, data? 1999-2000.

    PROUS, André. Arqueologia Brasileira. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 199?-1992.

     

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