A imagem da capa

Mulher dançando no espírito, uma fotografia tirada nos Estados Unidos, nos anos 1930

Karina Kosicki Bellotti

  • A foto da capa, “Mulher dançando no Espírito”, foi feita em uma reunião da Igreja de Deus da Profecia em 1930, nos Estados Unidos. Em destaque, uma mulher de braços abertos e olhos semicerrados, com a boca muda a nos dizer de sua fé. Poderia esta foto retratar o crescimento dos evangélicos num país até poucas décadas atrás conhecido pelo seu catolicismo? Como esta foto, tirada há 82 anos no berço do Pentecostalismo – expressão majoritária entre os evangélicos no Brasil –, poderia corresponder à multiplicidade de protestantismos e pentecostalismos encontrados aqui?

    Esta Igreja nasceu em 1915, entre várias que surgiram no final do século XIX e início do século XX nos Estados Unidos, ligadas ao movimento Holiness (de Santidade) e ao Pentecostalismo, que reencenava em seus cultos o episódio de Pentecostes (Atos dos Apóstolos, 2), momento em que milhares de pessoas teriam recebido a presença do Espírito Santo, manifestando-se na glossalia – falar línguas desconhecidas em transe religioso – e na profetização. O Pentecostalismo, trazido para o Brasil em 1910, favorece expressões religiosas espontâneas e emocionais – a manifestação do Espírito Santo pode atingir qualquer um, e de maneiras imprevisíveis. Há na foto expressões presentes em várias igrejas pentecostais atuais: mãos levantadas; a oração íntima das fiéis com Deus; e a disposição do corpo como instrumento da expressão do Espírito Santo. Mas no Brasil, antes desse período, o protestantismo já estava nas igrejas metodistas, presbiterianas, luteranas, congregacionais, batistas, com seus hinários e suas devoções.

    Na foto, muitas mulheres e poucos homens, misturados à multidão de senhoras e moças bem vestidas. A ideia de que as pessoas devem dar o seu melhor a Deus está presente em várias religiões. Ainda que hoje tenhamos tantas diferenças – uns vão à igreja com seus vestidos e ternos; outros, com seus piercings e tatuagens –, cada um se sente especial diante da divindade e de seus pares. Ainda assim, vemos muitas mulheres sustentando o corpo de fiéis de crenças e práticas em instituições ainda bastante controladas por lideranças masculinas. De qualquer modo, os fiéis em destaque lembram que as instituições religiosas são feitas de tradições, transformações, e de pessoas na sua diversidade.

    Mas onde estão os negros nessa foto? Martin Luther King Jr. disse em 1963 que as 11 horas da manhã de domingo era a hora de maior segregação na América, momento dos grandes cultos, em que os brancos e negros iam cada qual à sua igreja. A segregação racial foi duramente combatida, mas ainda hoje vemos essas separações. E no Brasil? Fala-se em igrejas de periferia, igrejas de classe média, igreja dos surfistas, entre muitas. Diferenças sociais, culturais e de gênero também se reproduzem nas igrejas. Os homens e as mulheres separam o que Deus une?

     

    Karina Kosicki Bellotti é professora da Universidade Federal do Paraná e autora de Delas é o Reino dos Céus: Mídia evangélica infantil na cultura pós-moderna do Brasil (1950-2000) (Annablume/Fapesp, 2010).

     

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